“Esta é uma noite maravilhosa para nós. É a noite da
estréia.
Os músicos desta orquestra representam uma grande
quantidade de nações do mundo, diferentes religiões,
filosofias, escolas de pensamento e de música. Essa
diversidade traz grande beleza, força e cor à minha
música. Traz luz para minhas notas.”
NARRAÇÃO FEITA POR
YANNI
Quero atingir as pessoas de um modo bom, abrir
seus corações, movê-las emocionalmente. Componho
minha música sozinho no estúdio,
no piano ou no teclado, a maior parte do
tempo sentado, em silêncio, pensando e ouvindo o que
está em minha mente. Esse é só um aspecto de tudo.

Então, essa música vai para as mãos de um incrível
violinista armênio; uma violinista japonesa que
também é incrível; um flautista
que toca o “duduck”,
um instrumento armênio; um rapaz chamado
Charlie Adams, nosso
incrível baterista de Chicago; um baixista,
Hussain
Jiffry do Sri-Lanka. Aí,
minha música ganha cor e se torna viva. Adquire um
significado e alma que eu nem imaginava.
No período de um mês, no tempo em que começamos
a estar sempre juntos,
acredito que todos os músicos se tornem mais
inteligentes porque aprendem uns com os outros
também e o espetáculo todo se beneficia com isso. E
eu fico admirado, adoro vê-los se apresentarem.
Procuro não controlá-los muito.
Alfreda Gerald é uma excelente vocalista. Ela
canta com a alma e sua entonação é impecável. Está
sempre alerta. É um fenômeno. Quando ela está na
frente do palco, leva a platéia
junto. É uma ótima artista.

Quando encontrei Walter Rodrigues, fiquei muito
feliz porque ele é um grande percussionista, tem
grande senso de ritmo e uma performance poderosa. Um
dia, estávamos sentados e ele estava fazendo alguns
sons com alguns pedaços de cano e eu perguntei: o
que é isso? Pedi que ele fizesse mais um pouco para
mim e fiquei observando. “É algo que eu costumo
fazer”, disse ele. E por que não
colocar isso no concerto? Às vezes, o que
criamos nos diz o que devemos fazer e temos que ser
suficientemente sensíveis para permitir que isso
aconteça.
Nossos primeiros ensaios são difíceis.
Primeiramente, reunimos os músicos, mas a orquestra
não está completa, talvez só um terço. Trabalhamos
partes de músicas e não as músicas inteiras e temos
que fazer dar certo. Eu tenho as músicas na cabeça,
mas vamos trabalhando nelas, pois muitos músicos não
são americanos. Eles vêm de diferentes culturas,
diferentes religiões, diferentes idéias e é assim
que a música deve ser. Tenho que estar aberto para
permitir que essas filosofias e emoções penetrem
minha música e através dessa complexidade, surge
a beleza porque ela se
torna única.

“UNTIL THE LAST MOMENT” é uma das minhas músicas
favoritas e é especial porque eu me lembro
exatamente onde estava quando a compus. Estava na
Grécia, em agosto, em casa, sozinho. Comecei a
compô-la à noite. Todos estavam dormindo. No dia
seguinte, mostrei a meu pai um trecho e nos dias que
se seguiram, ele pôde me ver compondo aquela música.
Isso a tornou muito especial. Foi
a primeira vez que meu
pai me viu compondo, criando. É uma música antiga.
Toquei pela primeira vez no concerto “Acropolis”,
mas ainda gosto muito dela e a toco sempre. Fui
explicando a meu pai que ali colocaria violoncelo,
aqui começariam os violinos, enquanto eu tocava no
piano. Depois, levei alguns meses para finalizá-la e
ele, finalmente, pôde ouvi-la com orquestra.
Momentos assim a gente nunca esquece. Posso até
vê-lo novamente. Ele gostou de “Until
the
last moment”.
Acordo pela manhã, tomo
café e começo a trabalhar. E o que eu faço? Tudo.
Cuido da orquestra toda. Cada violino tem que ter
seu microfone, às vezes até dois. Na mesa de som há
controles para todos os sons de toda a orquestra. O
som vem para a mesa, às
vezes três instrumentos separados, eles têm que ser
colocados juntos, serem amplificados. As pessoas têm
que estar ligadas a tudo: vídeo, luzes. Trabalho
muito, presto atenção a tudo. Trabalho com cada um,
o mais próximo possível. São infinitas horas, dias,
semanas, meses. Tenho idéias e tenho que segurá-las
para colocar em prática. Isso é criatividade. Isso é
criar algo. Vejo com os olhos de minha mente, ouço
com os ouvidos de minha mente. Sei exatamente o que
quero. Não posso perder o contato com isso. Mas essa
arte precisa de colaboração. Há muita gente
envolvida: diretores de iluminação, engenheiros de
som, câmeras, músicos, muita gente para dar vida à
minha música. Antes de mais nada,
tenho que manter tudo o mais próximo possível do que
imaginei.

O telão que fica atrás é extremamente importante
porque pode-se ver os
músicos de perto. É importante ver as expressões
faciais dos músicos quando eles tocam. Quero que as
pessoas vejam isso para apreciar melhor a
apresentação.
Sasha, Alexander
Ziroff, é um grande
violoncelista de Moscou. Lembro-me de que um dia
estava vindo para o ensaio e tive uma idéia. Chamei-o: ”Sasha,
venha até aqui. Traga o violoncelo.” Ele sentou-se e
eu disse que estava pensando em ter um solo de
violoncelo no meio do concerto, mas tinha que ser
bom. Tinha que ser estimulante, emocionante, bonito
porque o violoncelo é um instrumento sonoro, mas o
som é delicado e pode, facilmente,
ser encoberto pela
bateria, baixo, teclado ou qualquer coisa, ele
desaparece. Queria mostrar o violoncelo em sua
grandeza, isolado e Sasha
é um violoncelista poderoso. Ele não toca, ele
“ataca” o violoncelo.
Uma coisa muito importante neste novo show é o
controle do ambiente. Em
Acropolis, Taj-Mahal, Cidade Proibida, os
concertos foram em locais
abertos, muito difícil de se controlar o
ambiente. São locais antigos e tivemos que ter muito
cuidado com a posição do equipamento. Num lugar
fechado, controla-se melhor o ambiente e a posição
dos instrumentos musicais, luzes. Você pode fazer o
que quiser. Desse modo, podemos nos concentrar mais
na apresentação.

Por fim é só um garoto tocando piano, um garoto
se expressando, um garoto de uma cidadezinha grega,
Kalamata, sendo levado
pela emoção, querendo ser compreendido pelas
pessoas, querendo ser algo positivo na sociedade.
Continuo a ser aquele garoto e ainda componho,
ainda me sinto como na época em que era garoto, com
a mesma criatividade e a música ainda é um dos
maiores prazeres da minha vida. Ainda procuro mover
as pessoas emocionalmente e tocar seus corações.
Minha música não é complexa ou lógica. É sobre
emoção e comunicação. Acho que esse é o sentido da
vida, o sentido de ser um artista é a comunicação e,
se podemos tocar almas e corações, modificar estados
de espírito, mover pessoas, afetá-las, fazê-las se
sentirem melhores, este é
o sentido da vida de um compositor.

Só faço música de que gosto. Não faço a música
da moda. Faço música porque gosto. Componho sem
pensar muito sobre isso e se ela é verdadeira,
encontrará seu público. Não é obrigatório que todos
gostem de minha música, não se pode atingir a todos,
mas a idéia é a comunicação com muitas pessoas.
FINAL
“THE STORM”
é uma composição de Vivaldi que desenvolvi.
Aumentei a velocidade para 160 batidas por minuto. É
incrivelmente rápida. Baseei-me em Vivaldi, mas
escrevi alguns trechos novos. Com dois violinistas
incríveis como Samvel e
Sayaka, ficou excelente.
É divertida e é de tirar o fôlego. As pessoas
adoram. Já tocamos em mais ou menos 60 shows e o
público responde bem.”


